Moderna e MSD anunciaram resultados positivos de um estudo de fase 3 com uma terapia individualizada baseada em RNA mensageiro; tratamento combinado ao Keytruda reduziu a recorrência e a disseminação do melanoma em pacientes de alto risco

Ilustrativa, gerada por IA/Cidades em Evidência
A Moderna e a MSD anunciaram, nesta quarta-feira (19), resultados positivos de um estudo internacional de fase 3 que avaliou uma terapia personalizada baseada em RNA mensageiro (mRNA) contra o melanoma. Chamada intismeran autogene, também identificada pelos códigos V940 ou mRNA-4157, a terapia foi administrada em combinação com o imunoterápico Keytruda (pembrolizumabe) e apresentou melhora estatisticamente significativa e clinicamente relevante na sobrevida livre de recorrência e na sobrevida livre de metástase à distância, em comparação com o uso do Keytruda isoladamente.
O anúncio é considerado relevante para a pesquisa contra o câncer porque representa o primeiro resultado positivo de fase 3 para uma terapia individualizada baseada em neoantígenos e para uma terapia contra o câncer baseada em mRNA. O resultado também marca a primeira demonstração, em fase 3, de benefício clinicamente significativo sobre o Keytruda sozinho nesse cenário de melanoma após cirurgia.
Estudo envolveu 1.137 pacientes com melanoma de alto risco
O estudo INTerpath-001, registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT05933577, envolveu 1.137 pacientes com melanoma cutâneo de alto risco nos estágios IIB, IIC, III ou IV, que haviam passado por remoção cirúrgica completa do tumor.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em uma proporção de 2 para 1. Um grupo recebeu a combinação da terapia personalizada com Keytruda, enquanto o grupo de comparação recebeu Keytruda sozinho.
A análise divulgada pelas empresas foi realizada em um momento previamente estabelecido no protocolo do estudo. Os resultados foram suficientes para que os dois principais objetivos avaliados fossem considerados atingidos.
Terapia é produzida de acordo com o tumor de cada paciente
Diferentemente de uma vacina convencional, desenvolvida para prevenir uma infecção específica, o intismeran autogene é uma terapia individualizada contra o câncer.
Para desenvolver o tratamento, os pesquisadores analisam as características genéticas do tumor de cada paciente. A partir dessa análise, são identificadas mutações específicas do câncer e selecionados os chamados neoantígenos, estruturas que podem ser reconhecidas pelo sistema imunológico.
A terapia utiliza uma molécula sintética de mRNA para apresentar esses alvos ao organismo e estimular uma resposta das células de defesa contra as células tumorais que carregam essas características.
Na prática, a proposta é criar um tratamento baseado na chamada “impressão digital” genética do tumor de cada paciente, tornando a abordagem diferente dos medicamentos convencionais administrados de maneira semelhante para todos os pacientes com a mesma doença.
O Keytruda, cujo princípio ativo é o pembrolizumabe, é um medicamento de imunoterapia que bloqueia a proteína PD-1, ajudando o sistema imunológico a manter sua capacidade de atacar células cancerígenas.
A estratégia da combinação é utilizar a terapia personalizada para apresentar ao sistema imunológico alvos específicos do tumor, enquanto o Keytruda atua sobre um dos mecanismos utilizados pelo câncer para escapar da resposta imunológica.
Segundo as empresas, a combinação foi desenvolvida como tratamento adjuvante — ou seja, administrado depois da cirurgia — para reduzir a possibilidade de o câncer voltar ou se espalhar.
Na análise intermediária previamente estabelecida, a combinação de intismeran autogene com Keytruda atingiu:
- sobrevida livre de recorrência (RFS), que era o principal objetivo do estudo;
- sobrevida livre de metástase à distância (DMFS), um dos principais objetivos secundários;
- resultados estatisticamente significativos e considerados clinicamente relevantes em comparação com Keytruda sozinho;
- nenhum novo sinal de segurança identificado em relação ao perfil já conhecido da combinação.
A sobrevida livre de recorrência mede o período em que o paciente permanece sem que o câncer volte ou sem ocorrência de morte relacionada à doença.
Já a sobrevida livre de metástase à distância avalia o período até que o câncer se espalhe para outras regiões ou órgãos distantes do local original.
Um ponto importante é que os números completos da eficácia da fase 3 ainda não foram divulgados. As empresas informaram que apresentarão os dados detalhados em uma próxima reunião médica internacional.
O resultado da fase 3 acontece depois de dados positivos observados em estudos anteriores com a mesma tecnologia.
Em um estudo de fase 2b, a combinação de intismeran autogene com Keytruda já havia demonstrado benefícios importantes em pacientes com melanoma de alto risco após cirurgia.
Em um acompanhamento de cinco anos, a combinação apresentou 49% de redução no risco de recorrência ou morte e 59% de redução no risco de metástase à distância ou morte, em comparação com Keytruda sozinho.
Esses números, entretanto, pertencem ao estudo anterior de fase 2b e não devem ser apresentados como se fossem os resultados quantitativos da nova fase 3. Os dados completos do estudo de fase 3 ainda serão divulgados.
Tratamento ainda é experimental
Apesar dos resultados positivos, o intismeran autogene ainda não está aprovado para uso comercial.
A terapia permanece em desenvolvimento clínico, e a Moderna e a MSD informaram que pretendem apresentar os dados completos e dialogar com autoridades regulatórias sobre possíveis pedidos de aprovação.
Isso significa que a notícia não representa a chegada imediata de uma vacina contra o câncer às farmácias ou hospitais.
Também é importante esclarecer que a terapia não é uma vacina preventiva tradicional. Ela é desenvolvida a partir das características do tumor de um paciente que já teve câncer e passou por cirurgia.
Estudo continuará avaliando outros resultados
O INTerpath-001 ainda continuará seu acompanhamento para avaliar outros desfechos previstos no protocolo.
Entre eles está a sobrevida global, indicador utilizado para determinar se o tratamento também aumenta o tempo de vida dos pacientes.
Esse resultado ainda não está disponível e será acompanhado conforme o estudo avance.
Por isso, embora os resultados anunciados sejam considerados importantes, eles não permitem afirmar que a terapia representa uma cura para o melanoma.
Tecnologia pode avançar para outros tipos de câncer
A parceria entre Moderna e MSD não está limitada ao melanoma.
As empresas estão desenvolvendo um programa de estudos chamado INTerpath, que investiga a tecnologia em diferentes tipos e estágios de câncer.
Entre as áreas de pesquisa estão tumores como câncer de pulmão de não pequenas células, câncer de bexiga e carcinoma renal, além de outras indicações em investigação clínica.
A expectativa é verificar se a estratégia de identificar mutações específicas de cada tumor e criar terapias personalizadas pode ser aplicada a diferentes tipos de câncer.
Entretanto, os resultados obtidos no melanoma não permitem concluir que a mesma eficácia será observada em outros tumores. Cada indicação precisará ser estudada separadamente.
Um avanço na medicina personalizada
O resultado chama atenção por combinar duas estratégias que ganharam espaço na oncologia: imunoterapia e medicina personalizada baseada nas características moleculares do tumor.
Em vez de utilizar exatamente o mesmo tratamento para todos os pacientes com determinado tipo de câncer, a proposta é identificar as características específicas de cada tumor e desenvolver uma terapia direcionada a esses alvos.
A tecnologia de mRNA, que ganhou notoriedade mundial com as vacinas contra a Covid-19, passa a ser explorada também em tratamentos contra o câncer.
O resultado positivo do INTerpath-001 representa uma etapa importante porque leva essa abordagem a uma avaliação de fase 3, estágio avançado do desenvolvimento clínico.
Com os resultados positivos, Moderna e MSD deverão apresentar os dados completos do estudo à comunidade científica e às autoridades regulatórias.
A expectativa agora está concentrada na divulgação dos números detalhados de eficácia e segurança, além do acompanhamento da sobrevida global.
A avaliação regulatória será fundamental para determinar se a terapia poderá ser aprovada e, posteriormente, disponibilizada aos pacientes.
As empresas também precisarão demonstrar que a produção individualizada do tratamento pode ser realizada de maneira segura, eficiente e em escala adequada.
Enquanto isso, os estudos do programa INTerpath continuarão avaliando o potencial da plataforma em outros tipos de câncer.
Avanço importante, mas ainda não uma cura
O anúncio da Moderna e da MSD representa um avanço relevante na pesquisa de tratamentos personalizados contra o câncer.
Pela primeira vez, uma terapia individualizada baseada em neoantígenos e mRNA apresentou resultado positivo em um estudo de fase 3, atingindo objetivos relacionados à prevenção da recorrência e da disseminação do melanoma.
Os resultados, porém, ainda são provenientes de uma análise intermediária, e os dados completos da fase 3 ainda serão apresentados.
A terapia também permanece experimental e depende de avaliação pelas autoridades regulatórias antes de qualquer eventual aprovação.
O próximo passo será analisar os dados completos do estudo para determinar a dimensão real do benefício e o possível papel da terapia no tratamento de pacientes com melanoma de alto risco.
Fontes: Moderna e MSD/Merck; Reuters; ClinicalTrials.gov; publicações científicas e cobertura especializada sobre o estudo INTerpath-001.
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