Pastores investigados por crimes sexuais contra adolescentes também são acusados de usar igreja para intimidar vítimas e impedir denúncias

Relatório da Polícia Civil de Roraima aponta que casal utilizava punições internas da igreja e oferecia dinheiro para silenciar adolescentes; inquérito foi concluído com diversos indiciamentos.

Reprodução/Internet 

A Polícia Civil de Roraima (PCRR) concluiu o inquérito que investiga o casal de pastores evangélicos Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamyla Moraes de Souza, de 24, por uma série de crimes sexuais contra adolescentes. Além das acusações de abuso, as investigações apontam que os líderes religiosos utilizavam a estrutura da igreja para intimidar vítimas, desencorajar denúncias e manter controle sobre os fiéis.

Segundo o relatório final da investigação, o casal se valia da posição de autoridade religiosa para exercer influência sobre adolescentes e demais membros da comunidade. Conforme a Polícia Civil, documentos internos da própria instituição religiosa estabeleciam punições para integrantes que fossem considerados "rebeldes" ou promovessem "dissidência" contra a liderança da igreja.

Na prática, de acordo com os investigadores, qualquer fiel que denunciasse os pastores poderia ser acusado de provocar divisão na comunidade religiosa, além de correr o risco de ser expulso da congregação. Integrantes que ocupavam cargos de liderança ou atuavam em ministérios também poderiam perder suas funções caso fossem considerados desobedientes.

Ainda segundo a Polícia Civil, além das punições internas, o casal teria oferecido dinheiro em espécie, transferências via Pix e outras vantagens para impedir que adolescentes denunciassem os supostos abusos às autoridades.

O inquérito também aponta tentativas de ocultação de provas durante as investigações.

Uma mulher de 20 anos foi indiciada por fraude processual e corrupção de menores após, supostamente, participar da destruição do telefone celular do pastor. Conforme a investigação, a ação teria contado com a participação de uma adolescente e de uma das vítimas.

Os investigadores afirmam ainda que uma das jovens foi orientada a registrar um boletim de ocorrência falso para justificar o desaparecimento do aparelho celular.

No relatório final, a delegada Kamilla Basto destacou que o caso apresenta um elevado grau de complexidade devido ao contexto religioso em que os fatos teriam ocorrido.

Segundo a autoridade policial, os investigados teriam utilizado a confiança depositada pelas vítimas na liderança espiritual como mecanismo de manipulação, dominação psicológica e silenciamento.

A Polícia Civil concluiu que não houve consentimento livre por parte das vítimas, sustentando que os fatos ocorreram em um cenário marcado por abuso de autoridade religiosa, coerção e manipulação emocional.

Com a conclusão das investigações, Wenderson Lima de Souza foi indiciado, em tese, pelos crimes de:

  • Estupro de vulnerável;
  • Importunação sexual;
  • Favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou pessoa vulnerável;
  • Registro não autorizado de intimidade sexual;
  • Fraude processual;
  • Falsidade ideológica.

Já Arielly Kamyla Moraes de Souza foi indiciada, em tese, pelos crimes de:

  • Estupro de vulnerável;
  • Importunação sexual;
  • Fraude processual.

Com o encerramento do inquérito policial, o procedimento será encaminhado ao Ministério Público, que analisará as provas reunidas e decidirá sobre o eventual oferecimento de denúncia à Justiça. Os investigados terão direito ao contraditório e à ampla defesa durante as próximas fases do processo, conforme prevê a legislação brasileira.


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